Francisco Barboza Leite era um artista múltiplo. Natural de Uruoca, no Ceará, atuou como pintor, poeta, escritor, jornalista, ensaísta, cenógrafo, ator e compositor. Filho de um agente ferroviário, saiu de sua cidade natal aos 16 anos para descobrir o mundo. Se fixou em Fortaleza, onde se familiarizou com as artes gráficas e com a fotografia. Autodidata, coletava informações, críticas e opiniões que lhes permitiam aprimorar sua habilidade e consciência artísticas. Casou-se em 1942 e pouco depois já atuava também na imprensa, lançando também o primeiro livro, “Esquema da Pintura do Ceará”.

Conheceu o Rio de Janeiro em 1947, chegando a Duque de Caxias, para ficar até os últimos dias de sua vida, por influência de um amigo poeta, Solano Trindade. Continuou mandando trabalhos para Fortaleza, onde recebeu vários prêmios nos anos seguintes. Em 1952, mandou buscar a família no Ceará. A cidade era um pouco mais que uma estação de trens “Maria Fumaça”, cercada de casas humildes em ruas sem calçamento, esgoto ou água encanada. Entretanto, tinha algo que o encantava: uma população emigrada de todas as regiões do Brasil, formando um verdadeiro microcosmo cultural. Aqui, sentia-se em casa, aos domingos passeava na Grande Feira de Duque de Caxias.

Aqui passou a coordenar a Escolinha de Arte da Fundação Álvaro Alberto, mais conhecida como Mate com Angu. No período em que participava da Orquestra Sinfônica de Duque de Caxias, Barboza teve como compositor o seu momento mais sublime, ao compor a canção’ Exaltação à Cidade de Duque de Caxias’, que se tornaria mais tarde o Hino Oficial da cidade. Ajudou a organizar a mais importante exposição de Artes Plásticas já feita em Duque de Caxias, tal a envergadura de seus participantes: Antônio Bandeira, Goeldi, Bruno Giordi, Inimá, Barrica, Ana Letícia (sua ex-aluna na Associação Brasileira de Desenho) e Iberê Camargo, entre outros não menos conhecidos ou importantes. Em 1967 colaborou com Laís Costa Velho na criação do Teatro Municipal Armando Melo, o primeiro teatro da cidade. Foi dele o anteprojeto para a criação do Centro de Arte e Cultura, apresentado à Prefeitura Municipal de Duque de Caxias e que, no entanto, não saiu do papel.

Continuou sua intensa vida cultural, publicando livros, cordéis, produzindo curtas-metragem em Super 8, implantando a 1ª Feira de Artes de Duque de Caxias e colaborando na criação do Conselho Municipal de Cultura, o qual presidiu por dois anos. Recebeu o título de Cidadão Duquecaxiense e a Comenda do Mérito Duque de Caxias, entre outras distinções. Ao final dos anos 80, aposenta-se por tempo de serviço no IBGE, onde havia ingressado por concurso em 1949. Em 1991, participou da elaboração da proposta de criação da Secretaria de Cultura de Duque de Caxias. A partir daí, seu ímpeto criativo manifesta-se em diversos projetos culturais desenvolvidos pela nova secretaria, entre eles os Salões de Artes Plásticas; a Feira do Folclore Nordestino; edição do livro ‘Viagem pela Poesia’, abrangendo a produção poética da cidade de Duque de Caxias no período de 1940 a 1990, coletando assim poemas de 103 poetas radicados na cidade. A culminância desse trabalho empreendido aconteceu em julho de 1992, quando foi criada, através da Lei Municipal n.º 1129, um antigo sonho: a Escola de Artes da Secretaria de Cultura de Duque de Caxias, que teve o grande artista seu primeiro Diretor.

Barboza Leite veio a falecer em 22 de dezembro de 1996. Durante toda sua vida, pintou centenas de quadros, inúmeros murais, cenários, e compôs canções. Sua pena percorreu milhares de quilômetros, deixando no papel, a fina sensibilidade, ora do escritor, ora do desenhista. Conquistou inúmeras medalhas de ouro e prata. Foi o primeiro artista da Baixada Fluminense a ganhar uma homepage na internet, em março de 2001, concebido pelo jornalista Josué Cardoso em parceria com o webdesigner Alberto Ellobo, por ocasião da comemoração do Dia Municipal da Cultura, instituído pela prefeitura em 20 de março de 2000, em homenagem à data de seu nascimento.

Texto de Josué Cardoso para a sessão “Memória Viva” da Revista da Cultura Caxiense, edição nº 4, de Dezembro de 2002, editada pela Secretaria de Cultura de Duque de Caxias. Foto: (álbum de família)

ELES FIZERAM HISTÓRIA

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